quarta-feira, 31 de outubro de 2012

LUPA

clique na imagem para Zoom

    Trabalhei na Casa de Detenção Profº. Flamínio Favero por cinco anos, na assessoria do diretor Luizão,lá conheci um preso incomparável. "Lupa","Mala", "Nego Lupércio", estes eram alguns de seus apelidos.

 Figura de boa índole, contava ele, que tinha mais ou menos 60 anos de idade. Não tinha família, era sua décima quinta entrada na Casa de Detenção e, pasmem, todas por tráfico de drogas.

    Durante o período em que lá estive Lupa foi e voltou três vezes e, curioso, todas as vezes que saía em liberdade, já no portão de saída, virava-se para o interior da unidade e dizia com sua voz rouca: "Não fiquem tristes. Volto logo". E voltava.

    Era comum nego Lupa juntar uma roda de funcionários e contar suas histórias.
   Contava ele, nos tempos de juventude, ter sido massagista de times grandes, o que sempre acreditei, tal seu conhecimento a respeito. Era o massagista da
seleção da Casa.                                                                                               

   Sempre rindo, para ele não havia tristeza, contava também, ter sido lutador de box e, olha, levava jeito. Dentre suas histórias, algumas eram fruto de sua imaginação. Conto a que mais me marcou.

   Numa de minhas saídas em liberdade, contou ele, estava sem dinheiro e procurei logo um conhecido meu que mexia com entorpecente, e claro, consegui uma quantidade de fumo para enrolar uns parangos e arrumar uma nota, tudo em consignação, peguei a mercadoria e lá fui para a pensão onde morava, ali na Tiradentes, onde eu já era conhecido da dona... Peguei uns cigarros e o resto escondi na cama de um bobo que também dormia no local. "Se rodasse, ele sim, ia em cana". Saí dando umas voltas até chegar na Práça Princesa Isabel, eu já estava ligadão e procurava um lugar para esconder os pacau...Mas parecia que todo mundo estava de olho em mim. Até que passou por mim uns otários que queriam comprar. Mandei os tontos irem andando na frente e fui atrás para servi-los. Sempre esperto, pois não podia marcar bobeira.

   Foi quando de repente me vi encurralado por dois soldados a cavalo que ficaram me cheirando, caguetando que a droga estava na cueca. Cana dura. Não teve acerto, tentei fazer a cabeça dos policiais, chorei "na nossa", mas não tive oportunidade. Vamos nessa e me grampearam.


"Oh! oh! oh! Lá ia eu de volta para a Casa da Banha. Cheguei no bondão, maior recepção, tinha até banda. Os malandros não são brinquedo, uns tremendo Chico Anysio.
"Seu Guilherme, contou, não ouvi os cavalos fazendo barulho, então olhei nos pés deles. Calçavam tênis Montreal".

   Essa é mais uma das histórias da Casa de Detenção. Esse tipo de preso não existe mais... Lamentavelmente "Nego Lupércio", terminou seus dias em liberdade morando de favor em um box de visita na Casa de Detenção. Hoje deve estar sorrindo no Céu. 


POR GUILHERME SILVEIRA RODRIGUES