quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RELIGIÃO, CIDADE DE DETENÇÃO!

clique na imagem para Zoom
       Todos os elementos que compõem a estrutura funcional de uma cidade: regras, costumes, leis, vícios, comércio, grupos, guerra, religião e outros mais, faziam parte da rotina diária da Casa de Detenção ”Professor Flamínio Fávero”.

       Posso dizer que uma atividade que auxilia a manter o equilíbrio no interior de um estabelecimento penal, foi e ainda continua sendo, a espiritualidade.


       O tempo nos mostrou que a espiritualidade é um dos melhores caminhos seguidos pelo preso para expiação da culpa. Ela, muitas vezes, desempenhou também o importante papel na manutenção da paz e disciplina da unidade.

       Na Casa de Detenção não havia prioridade a uma religião específica, o espaço era aberto a todos os credos e religiões, indistintamente, professadas conforme a ideologia de cada um. Cada pavilhão possuía espaços respectivos para acomodar as religiões, e eram cuidados com esmero pelos praticantes que zelavam pelos setores como se fossem seus.

       Cada qual professava sua religião levado por motivos pessoais e livre arbítrio com fé de que os problemas seriam minimizados e sua atuação positiva levaria a obter bons resultados.

       Alguns presos imbuídos de bons propósitos se conscientizavam dos erros cometidos e procuravam expiação. Outros visavam garantir sua integridade. O linguajar usado era: “se escondiam atrás da Bíblia”. Os mais espertos se aproveitavam de alguma forma para levar vantagem qualquer que fosse a religião.

       Católica, Evangélica, Espírita, Budismo, Umbanda eram as mais praticadas. Seus adeptos eram fiscalizados pelos presos encarregados de cada setor, já que cada religião tinha um setor próprio.    

       Católicos realizavam missas e encontros. Evangélicos realizavam cultos, batismos e pregações. Os espíritas e budistas e umbandistas organizavam seus rituais, de forma mais restrita.

       Com relação especificamente aos evangélicos, vou mais além, os praticantes eram rigorosamente fiscalizados pelos líderes, não podiam cometer qualquer ato que desabonasse sua conduta pessoal, tal como: fumar, brigar, cometer infrações que confrontassem a disciplina da unidade.

       Recebi muitas confissões, até de presos perigosos que me confidenciavam: “a cobrança por uma caminhada decente vem à noite na hora de dormir, nesse momento falamos conosco sem medos de reprovações ou vergonha por atos contrários a nossa vontade, onde cometíamos atrocidades para demonstrar força ou impor condição de sobrevivência num mundo que não admite fraquezas ou mostra de condescendência com nossos companheiros de infortúnio, nos entregamos silenciosamente e, às vezes, chorosos, a nossas orações e agradecimentos rogando uma manhã de paz e proteção e que durante o transcorrer do dia não necessitássemos contrariar nossa vontade”.

       Conheci alguns que até hoje se dedicam a pratica da religião, encontraram realmente o caminho para uma vida em liberdade, constituindo família vivendo dignamente e em paz.


 Por Guilherme Silveira Rodrigues