sexta-feira, 14 de junho de 2013

VÍRUS DO SISTEMA PENITENCIÁRIO

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QUAL O ANTÍDOTO?

              No início de minha carreira, meio relutante e com reservas, assumia como guarda de presídio na Penitenciária do Estado, sabendo que estava ingressando num ambiente onde tudo ia ser novo, porém não imaginava o quanto.  Aos poucos fui me incorporando num mundo que desconhecia. Muitos comentavam que os presídios eram o verdadeiro inferno, porém descobri que o inferno  podia estar muito mais próximo do que imaginava, dentro de cada um de nós.
             Tinha em mente que o preso deveria ser tratado "como preso", mas não tinha consciência de que o que ocorria no interior das prisões, nada mais era do que o reflexo do que ocorria na sociedade. Não imaginava que essa experiência fosse me modificar tanto.

              O tempo inexorável foi passando, aos poucos fui assimilando os ensinamentos dos companheiros mais antigos; o sistema foi se tornando parte de mim. Havia sido picado pelo famigerado e sem antídoto "vírus do sistema penitenciário". O mesmo que vitimou muitos outros colegas que se engajaram de corpo e alma nesta árdua, porém apaixonante missão.

              Tantos anos, praticamente a maior parte de minha vida convivendo com pessoas agressoras da sociedade que passaram ou estão numa prisão, gradativamente foram mudando minha visão a respeito de tudo que se relacionava ao assunto.     

              Personalidades mais diversas mesclavam paz e guerra, onde o bom senso e equilíbrio tinham que prevalecer sempre.

              Procurava todos os dias, de modo incansável, entender os meandros do mundo prisional, novos aprendizados, novos métodos de tratamento aos presos e consequentemente, novos resultados. 
   Entendi que a melhor maneira de se desenvolver um bom trabalho é através do tratamento respeitoso, é claro, sem abrir mão da disciplina, melhor é ser respeitado do que ser temido, pois as reações são imprevisíveis

              Aprendi a olhar não para o uniforme e sim para o que está dentro dele e ter consciência de que o preso não fica violento após ser preso, ele já vem violento da rua, onde assimilou todo tipo de permissividade e o que é pior, assimilou o lado mau.

              Ainda hoje apesar de ter mudado muitos conceitos, vejo que o mais importante continua do mesmo modo: tudo o que ocorre nas cadeias, nada mais é do que o reflexo do que ocorre em nossa sociedade... É só questão de tempo.

              Observei que muitos conflitos que afligem a sociedade no mundo fora das prisões, a nós são endereçados, cabendo ao sistema, munido dos recursos que dispõe, com muita perseverança encontrar soluções.
                                            
              Esses anos de trabalho me transformaram, sei que os momentos da vida são transitórios, hoje tenho consciência de que nós servidores penitenciários somos incumbidos de uma tarefa que reputo ser uma das mais relevantes: zelar para que a pessoa que agrediu a sociedade cumpra sua pena em boas condições, dentro das normas de legalidade, já que um dia ela obterá novamente sua liberdade.



Por
Guilherme Silveira Rodrigues