segunda-feira, 19 de agosto de 2013

HORA DO ALMOÇO, "BOIA"

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POR QUE OS PRESOS CHAMAM A HORA DO ALMOÇO DE “HORA DA BOIA”?

        Você já notou que no dia a dia, nós nos valemos de expressões que julgamos corriqueiras e de fácil entendimento para definir uma ideia, porém sem sequer nos preocuparmos em saber de onde e como surgiu tal frase ou palavra? No universo prisional então, isso acaba sendo uma constante, principalmente para os agentes de segurança penitenciária que, por força da função, lidam diretamente com os presos. Eles (agentes) têm de decifrar um dialeto paralelo à sociedade que é usado pelos internos, com uso demasiado de gírias.

         Na antiga Penitenciária do Estado, diante da rigidez imposta no cárcere, onde os presos eram proibidos até de conversarem entre si, eles desenvolviam várias outras formas de comunicação, algumas não verbais, como o “abano”, por exemplo.

        Alguns chegavam até a “namorar” com presas da penitenciária feminina que ficava a 200 metros de distancia, sem nunca tê-las visto ou tocado. A técnica consistia em trocar as letras do alfabeto por números de vezes que se abanava um pano. O detalhe é que ninguém podia “abanar” com o abano do outro ou, trocando em miúdos, ninguém podia “falar” com a namorada do outro.

        No livro “Código de Cela - o Mistério das Prisões”, o pedagogo e profundo conhecedor do sistema penitenciário, Guilherme Silveira Rodrigues, além de contar histórias antológicas que viveu ao longo do tempo em que trabalhou (e ainda trabalha) em penitenciárias de São Paulo, também define alguns termos e palavras criadas no cárcere e que muitas vezes saíram dos parâmetros da prisão para serem usadas à revelia em nosso cotidiano. O glossário, se é que podemos assim definir, traduz expressões como: pão (esse pãozinho francês que compramos na padaria) era chamado de marroco na prisão; o vaso sanitário, por exemplo, ainda é conhecido como “boi”, um simples recado anotado em papel chama-se “pipa”... E por aí vai: café é moka (em referência à famosa marca do produto), viatura é bonde, etc.

        Dentre tantas esquisitices, o que chama a atenção é a palavra “boia”.  Mesmo quem não está preso sabe que a hora da boia é a hora do almoço. Mas por que boia? De onde e como surgiu esse termo para denominar alimento ou hora de se alimentar? Em uma pesquisa rápida, consegui algumas explicações que, se não eliminam a dúvida por completo, ao menos dão algumas pistas para que formemos uma opinião.

         A explicação mais interessante que se encaixa perfeitamente no contexto penitenciário, fala de uma presiganga (navio usado como prisão, ou que recolhe prisioneiros) e foi citada no livro História das prisões no Brasil: “A Nau (Grande embarcação de guerra ou mercante) chamada Príncipe Real, inutilizada para o serviço de combate, passou a ser usada como prisão, depois de já ter transportado de passagem a Rainha Dona Maria I e o príncipe regente Dom João, por ocasião da transferência da Corte portuguesa para a colônia da América em 1807”.


        O texto explica que nas primeiras décadas do século XIX, a Santa Casa de Misericórdia fornecia assistência alimentar aos presos e os alimentos eram transportados do continente para a embarcação, em caldeirões sobre boias.

Fica a sugestão para pesquisar ou simplesmente refletir.
Jorge de Souza, jornalista.