quinta-feira, 6 de março de 2014

AH, SE NÃO FOSSE A GENTE


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            Duas sensações diferentes tomam minha mente todos os dias pela manhã: a primeira é a alegria de levantar tendo uma missão a cumprir todos os dias, após despedir-me da esposa e filhos, ir ao trabalho. A segunda, já ao contrário, é a tristeza que me toma, pois durante o trajeto que faço diariamente tenho que passar por dois ambientes que reputo serem os mais deprimentes em se tratando de seres humanos, dois ajuntamentos de pessoas.
   


       Jovens na sua maioria se atropelando, como se estivessem num mundo só deles, não se importando com o que ocorre ao seu lado, completamente alheios, olhando para o infinito. Maltrapilhos, desnudos,
magérrimos, sujos, mulheres grávidas, nada importa, somente a droga é o objetivo.

Pequenos furtos, tráfico, tudo para alimentar a insaciável vontade de se drogar, já não mais controlam a mente.

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Parte deles praticando ilícitos, na maioria das vezes sem atentar para a gravidade dos atos como se fossem inimputáveis perante a sociedade e a lei.

Autuados, homens ou mulheres são trazidos para os Centros de Detenção Provisória (CDPs), aonde chegam da mesma maneira deplorável que foram presos, muitos em estado de demência rindo do próprio infortúnio.

Aí entram em cena os abnegados agentes que além de desempenharem as funções de segurança e disciplina, onde se desdobram para que o homem preso saia da prisão melhor do que quando entrou. Desempenham papel importante que é em parceria com a equipe de saúde: cuidar também da saúde do preso.

Quando feita a triagem e qualificação conversam de maneira desconexa sem ter noção do que fizeram e por qual motivo se encontram nos CDPs, o trabalho por parte dos agentes é cansativo e desgastante, porém os resultados que fazem a diferença, são alcançados.

Nas unidades é que vão tomar banho, cortar o cabelo e se alimentar – o que fazem com voracidade – tudo isso acompanhados pacientemente por agentes de segurança que na maioria das vezes até os orientam como devem proceder no interior do presídio.

Após alguns dias é que acordam e caem em sí.

Alguns entram em crise de abstinência e requerem tratamento prolongado demorando um pouco mais para voltarem à realidade.

Quando vão ser postos em liberdade é que notamos a diferença, entraram em frangalhos sem perspectivas,
a um passo da demência, sem noção de espaço e tempo.

Saem em liberdade conscientes, falando em viver livres. Oxalá aconteça. Nós fazemos muito bem nossa parte.

Ah, se não fosse a gente.

Guilherme Silveira Rodrigues

Kepe e distintivo utilizados pelos antigos
Guardas de Presídio Penitenciário, precursores

dos Agentes de Segurança Penitenciária.