sexta-feira, 16 de maio de 2014

AS EXIGÊNCIAS PSICOLÓGICAS DO TRABALHO NO SISTEMA PRISIONAL

COM A PALAVRA O SERVIDOR

     Historicamente a relação da humanidade com o tratamento dado ao criminoso é controversa.

     Tem sido uma luta constante de diversos segmentos da sociedade estabelecer o melhor “modus operandi” para equilibrar de modo adequado os sentimentos coletivos de amor e ódio nutridos em relação às pessoas que cometem crimes. Entenda-se amor e ódio, pois seguramente estão presentes em todas as ações, organizadas ou não, por políticas públicas nas quais estão intervindo diretamente partes da sociedade que têm posições antagônicas sobre o assunto.



     Ainda que muito discutível, é fato que em toda cultura civilizada a relação entre crime e punição está inter-relacionada.

     Não se tem efetivamente noção de quanto essa equivalência procede no atingimento de metas reintegrativas, mas o fato é que o tratamento dado às condutas desviantes tem a essência punitiva.

     Embora diversas áreas do conhecimento tenham apontado a fragilidade dessa forma de lidar com o sujeito criminoso, não foi possível até o momento apresentar uma forma de ação que contemplasse de modo mais integral o desejo “teórico” de inseri-lo adequadamente no convívio em sociedade e ao mesmo tempo tranquilizar o meio social em relação àquele indivíduo que se apresenta ameaçador por sua conduta e comportamento.

     Por um lado, os aspectos mais primitivos do “humano” que foram fidedignamente expressos na lei de Talião “olho por olho, dente por dente”; lei esta que se baseia na ideia de que a conduta retaliativa, vinga e educa, e que possui inúmeros representantes e defensores no dia a dia, nos meios de comunicação, geradores de opinião pública que propagam a necessidade de leis mais rígidas.

     Por outro lado, temos aqueles mecanismos que seriam considerados mais “evoluídos”, ligados a fatores políticos, religiosos, morais, éticos e filosóficos que preconizam a necessidade de acolhimento e perdão para a modificação do comportamento delitivo.

     Embora a Instituição Prisional seja completamente envolta por grandes muralhas e toda uma parafernália segregacionista, ela não é capaz (felizmente) de excluir completamente todos os seus partícipes da sociedade e de seus movimentos.

     Os trabalhadores desta instituição são, por excelência, transeuntes constantes entre duas realidades inquestionavelmente interligadas e retroalimentadas.

     Uma realidade externa aos muros, na qual está situada toda a complexidade dos valores e questionamentos da sociedade e de seus grupos. Outra, interna que se apresenta de modo muito particular expondo este sujeito a uma série de valores, comportamentos e situações que são no mínimo atípicas para seu “ambiente emocional”, meio sociocultural e de valores éticos e morais.

     Esta dualidade imposta ao trabalhador penitenciário é, talvez, a raiz da maior exigência, na vida funcional do sujeito, justamente no que diz respeito à sua vida psíquica.

Sérgio Ricardo Luiz Bassitt 
Psicólogo e psicanalista, 
servidor público da Secretaria da Administração Penitenciária.