segunda-feira, 19 de maio de 2014

FUTEBOL. A MOLA MESTRE DO ESPORTE PRISIONAL.

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     Sabemos do gosto dos povos pelas práticas esportivas, como natação, equitação, corrida, futebol, assim
como tantas outras, que demonstram força e união, embora algumas demonstrarem a individualidade, com momentos únicos e pessoais. A força sem a união, cada um por si, buscando provar interiormente sua mais forte capacidade. No futebol essa busca está alicerçada à união de todos por todos, em busca de um prêmio comum: a vitória.



     Como o ser humano preso não é diferente.

     Sabemos que se faz de tudo um pouco e, em alguns casos, muito mais para conseguir um convívio entre presos com presos e com funcionários na mais completa paz. O esporte faz com que os presos gastem mais energia física e isso ajuda tranquilizá-los, até certo ponto.

     Desde a inauguração da Casa de Detenção Profº. Flamínio Fávero, que popularmente foi conhecida como a Casa de Detenção do Complexo do Carandiru, havia também, como não se pode deixar de contar, um setor específico de esportes e recreação, que servia como uma das atividades de auxílio ao controle do bom andamento e comportamento dos presos dali.

     O setor de esporte e recreação trazia um sistema simples de funcionalidade: a mola mestre era o futebol.
Este por sua vez sabia-se ser a prática de lazer mais comum entre os presos, fácil, rapidamente entendida e compreendida. Esta prática nas prisões não requer de instalações muito elaboradas, daí o que encontramos, por mais simples que seja, permite que esta modalidade esportiva seja praticada.

     De outros esportes podemos citar o boxe que era conduzido pelo técnico Lindoarte Patriota e pelo Agente de Segurança Penitenciária João Ribeiro. Também neste campo haviam as competições chegando alguns presos participarem de um campeonato amador da Federação Paulista de Pugilismo.

     Na Casa de Detenção, além das partidas de futebol diariamente realizadas, era muito comum a realização de campeonatos internos, inclusive com times de fora da prisão.

     É bom frisar que nesses momentos os convidados sempre foram tratados com o maior respeito pelos presos e pelos funcionários.

     O maior campo de futebol era do pavilhão oito e era lá que se realizavam esses jogos, esses campeonatos. Nos campeonatos internos havia uma grande discussão para se realizar os regulamentos, para isso, ocorriam reuniões entre os presos de todos os pavilhões. Essas reuniões eram organizadas pelo setor de esporte e pela Federação Interna de Futebol Amador (FIFA), sempre supervisionado por um funcionário responsável por tal evento. Esse funcionário fazia parte da diretoria de esportes do presídio e podíamos notar que os jogos seguiam sempre a  lógica do campo esportivo.

     Nos idos do ano de 1988, o funcionário Valdemar Gonçalves, conhecido respeitosamente pelos presos e por funcionários como “Bin Laden”, ou “Véio”, ou simplesmente Senhor Valdemar, inicia seu controle do setor de esporte e recreação, iniciando assim uma administração permeada por lógica, razão, coesão e satisfação tanto de presos quanto da diretoria.

     Seu Valdemar finca raiz neste setor que chega ao seu final na partida de futebol que marcou o fim da Casa de Detenção em setembro do ano de 2002. Há de se salientar que este homem com sua maneira simples, de sorriso amarelado, teve uma grande importância no que se refere ao convívio dos presos, não importando qual fora a razão de estarem ali. Ocorreram partidas memoráveis que em épocas atrás chegaram a ganhar a visita de times profissionais de futebol, como o Esporte Clube Corinthians Paulista.
Após a desativação daquele presídio, seus habitantes, assim como funcionários foram distribuídos a tantos presídios, restando apenas os lapsos da lembrança. Histórias como essa que a sociedade não pode esquecer.
Esmael Martins                     
Servidor aposentado do Sistema Penitenciário. 
Diretor do Museu Penitenciário Paulista entre 
Fevereiro de 2001 à julho de 2007.