segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

COM A PALAVRA O SERVIDOR

O Penitenciarista e seus sentidos mais que aguçados.

Com o passar dos anos exercendo a atividade penitenciária e com o grande privilégio de ter prestado
serviços diversos em quase todos os setores de uma unidade penal, me fez desenvolver uma percepção sensorial mais profunda da realidade do cárcere.
Digo sempre aos alunos do Curso de Formação Técnico Profissional de Agente de Segurança Penitenciária, que com o passar dos anos, alguns servidores penitenciários se transformam em um verdadeiro Penitenciarista, desenvolvendo o “hedonismo profissional”, mesmo em se tratando de uma profissão considerada por todos como muito perigosa e com importância não reconhecida socialmente.

Diante desse fenômeno hedonístico pela causa penitenciária, o Penitenciarista passa a desenvolver não um “sexto sentido”, mas a enxergar, ouvir e sentir o cárcere através da essência do próprio cárcere.
Parece loucura, mas o Penitenciarista passa a “dialogar” com ambiente carcerário, a entender suas peculiaridades, sua rotina.
Consegue enxergar além das aparências e a ouvir não só os sons audíveis do dia a dia de uma prisão.
O Penitenciarista se programa mentalmente ao ponto de perceber o imperceptível e ser capaz de tirar conclusões mais que improváveis das ações e omissões dos presos e de todas aquelas pessoas que, direta ou indiretamente, participam da execução penal.
A linguagem carcerária apresenta variadas figurações e estilos, tornando-a de difícil compreensão, não sendo por isso, dominada por qualquer um, mas seu domínio é imprescindível para o verdadeiro Penitenciarista.
Os presos quietos, fazendo barulho, trancados em suas celas ou na quadra jogando futebol, devem ser encarados como dados empíricos possibilitando a análise constante. Esses dados são capazes de gerar informações carcerárias fundamentais para a atividade penitenciária.
Os sentidos aguçados do Penitenciarista fazem com que ele analise todos os dados que a prisão, diuturnamente e de diversos modos, apresenta, possibilitando a conclusão de informações que podem preservar vidas, a segurança, a disciplina ou evitar rebeliões e a consumação de planos audaciosos de fugas.
Dizem que na cadeia “pingo” é “letra” e que “letra” é “palavra”, assim como muitas vezes apenas uma “palavra” pode revelar um significativo e importante acontecimento fático no interior do presídio.
A pessoa encarcerada, para não se expor e ser subjugada pelos seus pares, se comunica de forma oculta, cabendo ao Penitenciarista, recepcionar essa comunicação e decifrá-la.
O Penitenciarista sente o cárcere e é esse sentimento especial que o faz diferente entre as diferenças.