quinta-feira, 21 de maio de 2015

Coluna memória oral


Com Luiz Camargo Wolfmann


No ano de 2011 a equipe do Museu Penitenciário/SAP iniciou o projeto Memória Oral do sistema
penitenciário com a meta de colher depoimentos acerca da trajetória de vida de diversas pessoas que fizeram, ou ainda fazem, parte da história penitenciária, com o intuito de ampliar o processo de divulgação de dados e informações sobre as histórias dos estabelecimentos prisionais do Estado, contribuindo assim, de maneira efetiva, para reconstruir e preservar essa memória.
Atualmente esse acervo imaterial possui mais de 40 depoimentos que são disponibilizados na sede do museu através de vídeos editados (momentos das entrevistas que são apresentadas no auditório) ou em vídeos sem cortes e transcrições, disponibilizados para pesquisadores na biblioteca do museu.

Agora, a partir desta edição o informativo “O Penitenciarista” também apresenta trechos destes depoimentos com a coluna “Memória Oral”.
 E para iniciar essa nova coluna apresentamos trechos do depoimento do saudoso Luiz Camargo Wolfmann em entrevista concedida em 2011:
 Entrei no sistema em 1955 há muito tempo. Acho que eu sou o único elemento ainda daquela época vivo, a maior parte está morto e alguns estão afastados, acho que o único que ainda está no sistema ainda sou eu.
Meu nome é Luiz Camargo Wolfmann, sou brasileiro por opção, eu nasci em Assunção no Paraguai e vim para o Brasil com seis meses de idade, sou filho de brasileira com alemão.
Quando ingressei no sistema eu ainda era muito ingênuo, tinha saído da polícia marítima, eu boxeava nessa época, o meu sonho era ser lutador de boxe ser um grande campeão. Sai da policia marítima, por ali eu não vi condição de fazer carreira, eu queria estudar, tinha vinte e poucos anos, ai fui fazer escola de polícia e entrei no sistema penitenciário.
A primeira mancada que eu dei foi quando eu estava de vigilância no setor de cozinha do IPA Rio Preto. Lá e eu via regularmente um rapaz, talvez de uns vinte anos, sei lá quanto, entrar para visitar um senhor. E ele entrava com uma das pernas meio encolhida, aí eu perguntei  para esse senhor que trabalha na cozinha, um cara até bom e falei:
-Oh escuta, esse moço que veio te visitar o que ele é seu?
Ele falou: - É meu filho!
E eu falei: - O que é? Acidente ou nasceu assim?
Ele falou: - Não, foi uma “foiçada” que eu dei na perna dele.
Isso me causou estranheza.
- Uma foiçada por quê?
Ele disse: Olha moço, eu não sei se o senhor já viu a minha ficha... Eu matei a minha mulher...
Aí eu perguntei pra ele sobre o motivo, e ele disse que sua casa era uma pequena casa de fazenda, com um quarto que servia de quarto e sala, o chão todo de terra, fogão a lenha e o quintal tinha umas galinhas, uns cachorros, alguma coisa lá... Disse que brigou com a mulher, pegou a foice e matou mulher na cama, saiu para o pátio e foi batendo a cerca até lá embaixo...
Disse ele: - Qualquer bicho que aparecia na minha frente eu agredia,  dei uma foiçada no moleque pequeno, pegou na perna e nem percebi o estrago que eu tinha feito, depois que eu fui ver que ele ficou aleijado e não tinha mais jeito de esticar a perna....
E eu ingenuamente, naquela época era tonto mesmo, eu perguntei: - Você não tem remorso?
Ele falou: - Tenho! Se eu conseguisse voltar no tempo, hoje eu faria pior...
Aí eu falei: - É brincadeira hein rapaz!
E o cara era gente boa hein, imagine se não fosse. Então eu comecei a perceber que esse negócio de remorso não existe.
 Se você pergunta, por que você fez isso ou aquilo, a pessoa encontra um motivo para justificar aquela atitude violenta dela: Matou porque levou um tapa na cara, ou então matou sem querer... Não era ele quem eu queria matar, errou o tiro... Então, está justificado, então não tem esse negocio de remorso, muito ainda dizem: Ah, o cara perdeu o sono!
Que nada, ele perdeu o sono por que ele deu azar de ter sido preso e tudo mais.